Based in Sydney, Australia, Foundry is a blog by Rebecca Thao. Her posts explore modern architecture through photos and quotes by influential architects, engineers, and artists.

A NOITE CHEGOU CEDO ESSA MANHÃ POR DETRÁS DAS SUAS PÁLPEBRAS

A NOITE CHEGOU CEDO ESSA MANHÃ POR DETRÁS DAS SUAS PÁLPEBRAS

Hoje tenho pela primeira vez trinta-e-cinco anos. Dentro de sete, quarenta-e-dois. O meu pai morreu com sessenta-e-nove, tinha eu vinte-e-oito acabados de fazer. Que terá sido a última coisa a passar-lhe pela cabeça?, antes de a bílis lhe jorrar pela boca e o coração estancar-lhe no peito? Terá pensado na vida? Na morte? Nos seus pais?, nos filhos?, na mulher? Dará, nesses momentos, para pensar em qualquer outra coisa que não no próximo folgo e sobrevivência?

A nossa última conversa uma discussão — como não podia deixar de ser. A última coisa que lhe disse — um “até amanhã” grunhido e ressentido. E agora, entre uma outra mágoa e rancor, encontro-me a perder um outro amigo, esquecido do que senti quando encontrei o corpo caído do meu pai, a camisa amarela rasgada, as calças verde cagadas, a mancha de vómito seco no chão, vertido, entre a sua boca esmaecida e os óculos despovoados.

“Merda”.

Tanto amor que lhe tinha, tanto carinho e admiração, e tudo resumido num “até amanhã” torto e carcomido por entre dentes. Preferia ter continuado zangado e frustrado com ele por muitos anos mais e ele vivo. Ter muitas mais discussões e nenhuma ser a última. Preferia que a primeira coisa que me ouvira não tivesse sido o choro de quem é arrancado do ventre para a vida, nem a última um rosno antes de ele partir arrastado para a morte. Preferia ter tido mais um abraço, mais uma conversa, ouvido mais um conselho, debatido mais uma ideia, escutado mais uma história… Ainda tenho tanto para lhe perguntar. Ainda tenho tanto para aprender com ele. Sobre ele. Mesmo que já cá não esteja.

Preferia ter tido mais uma, só mais uma oportunidade para lhe beijar a face e dizer-lhe o quanto o amava, o quanto o respeitava e admirava — mesmo quando estava zangado com ele. E ele comigo.

Mas a noite chegou cedo essa manhã por detrás das suas pálpebras, e eu ainda não tinha a maturidade para perceber que só nos zangamos com o que amamos.

Já passaram os anos que passam e eu sou filho do meu pai. E o que tenho hoje pela primeira vez terei amanhã pela última. E nunca sei — continuo, como naquela tarde, sem saber — quando é que hoje se torna amanhã.

On the 70 years of the Declaration of the Human Rights